Intimidade consigo mesmo
Bel Cesar
Você já se pegou sonhando em ser outra pessoa, vivendo em outro lugar? Quando nos distanciamos de nossa realidade, distanciamo-nos de nós mesmos. Então, é hora de perguntar: por que está tão difícil levar adiante a vida?
Aceitar estar nesta vida, com este corpo. A falta de contato conosco cria a sensação de solidão e isolamento. O prazer de estar consigo mesmo cria a disponibilidade para estar com o outro. Uma pessoa chata é aquela que não consegue estar consigo mesma e espera que o outro a tolere!
Se pararmos para observar o que pensamos sobre nós mesmos, iremos nos dar conta do quanto nossa auto-avaliação possui o poder de nos aproximar ou nos distanciar de nós mesmos. Para termos uma relação saudável, próxima e direta com nós mesmos, precisamos parar de nos auto-rejeitar.
Quando estamos bem, sentimo-nos confortáveis em nosso corpo: a respiração flui, a barriga está relaxada e as costas estão naturalmente eretas. Quando negamos a nós mesmos, nosso corpo reage, expressando dor. Podemos pensar que estamos bem, mas se nosso estômago começar a doer, irá revelar nossa ansiedade e confusão emocional.
Portanto, se tivermos um relacionamento superficial com nossas emoções, poderemos momentaneamente negar nossos sentimentos, mas nosso corpo irá revelar que estamos, na realidade, nos abandonando.
São muitas as vezes em que dizemos o que não sentimos verdadeiramente. Isso ocorre porque não sentimos o que pensamos! Reconhecer que não estamos sentindo o que deveríamos sentir ou gostaríamos de estar sentindo é um desafio interior que devemos enfrentar.
No entanto, na maioria das vezes buscamos pensar algo justamente como um mecanismo de defesa para não sentir nossos sentimentos. Isto é, em simplesmente senti-los sem julgá-los como ruins ou bom. Senti-los com a intenção de conhecê-los. Sermos abertos para com nossos sentimentos demanda sinceridade e compaixão.
Não basta querer não pensar em algo para deixar de senti-lo. Os sentimentos não desaparecem só porque são indesejáveis. Aliás, pensar e sentir são duas funções que precisam estar harmonizadas entre si. Podemos pensar em nossas emoções, mas será necessário senti-las para que elas possam fluir. No entanto, não são os sentimentos em si que nos proporcionam sabedoria, mas sim o processo de abrirmo-nos a eles.
John Ruskan, em seu livro Purificação Emocional (Ed. Rocco), escreve sobre a importância de saber entrar em contato com nossos sentimentos sem a intenção de analisá-los imediatamente: “Lembre-se de que você não está entrando no sentimento com a intenção de analisá-lo e compreendê-lo. Não tente compreender porque o evento ocorreu, o porquê de suas ações ou sentimentos, o que há de aprender com o evento, etc... Essas compreensões virão espontaneamente como resultado da integração que a experiência direta trará. Por enquanto, limite-se a experimentar plenamente os sentimentos do evento. Se você persistir em tentar analisar, a integração será inibida”.
Portanto, o segredo está em confiar que você obterá o que necessita saber de uma experiência no ato de acolhê-la. Ou seja, podemos nos propor sentir o que rejeitamos como processo de autoconhecimento e não como um sentença de condenação.
Não podemos nos obrigar a sentir nossos sentimentos. Não há necessidade de forçar nada.
O objetivo é integrar as diferentes partes de nossa mente e criar intimidade, isto é, proximidade com a própria mente. E não necessariamente analisá-la. Enquanto a análise estiver contaminada do hábito da auto-acusação, é melhor mantê-la de fora.
A chave é manter uma relação direta consigo mesmo. Pois só assim poderemos apreciar a energia fluida e agradável que existe naturalmente dentro de nós.
Ser sincero com você mesmo é um ato de coragem. Pois o autoconhecimento nos leva a tomar decisões ousadas e irreversíveis. Lembro-me certa vez quando consegui assumir conscientemente algo que precisaria de muita coragem para reconhecer o que, de fato, estava sentindo. Entrei no meu quarto, apaguei a luz, deitei na cama, cobri meu rosto com a coberta, e perguntei a mim mesma: o que você quer fazer nesta situação?
Apesar de saber que já conhecia a resposta, ter agido assim fez com que eu me aproximasse da decisão. Não havia mais como negar a mim mesma. Depois que escutamos o que queremos, não dá mais para fugir. Pelo menos de nós mesmos. Podemos estrategicamente continuar fingindo para o mundo algo que ainda não estamos prontos para expressar, mas internamente não podemos nos enganar.
Quando finalmente relaxamos, comunicamo-nos com nosso mundo interior sem mais rodeios e rompemos as barreiras das palavras, permitindo que a nossa mente e o corpo se unam. Aos poucos, percebemos que é possível relaxar em nossa própria energia. Quando o corpo e a mente estão unidos, participamos plenamente do mundo e podemos nos comunicar com ele num nível ainda mais amplo e sutil.
Quanto mais transparência houver dentro e fora de nós, melhor será. Ocorrerão menos interferências negativas, pois aquele que não teme ser autêntico está em harmonia com o mundo à sua volta. Pois está conectado com o mundo, aberto e interessado em interagir.
Você já se pegou sonhando em ser outra pessoa, vivendo em outro lugar? Quando nos distanciamos de nossa realidade, distanciamo-nos de nós mesmos. Então, é hora de perguntar: por que está tão difícil levar adiante a vida?
Aceitar estar nesta vida, com este corpo. A falta de contato conosco cria a sensação de solidão e isolamento. O prazer de estar consigo mesmo cria a disponibilidade para estar com o outro. Uma pessoa chata é aquela que não consegue estar consigo mesma e espera que o outro a tolere!
Se pararmos para observar o que pensamos sobre nós mesmos, iremos nos dar conta do quanto nossa auto-avaliação possui o poder de nos aproximar ou nos distanciar de nós mesmos. Para termos uma relação saudável, próxima e direta com nós mesmos, precisamos parar de nos auto-rejeitar.
Quando estamos bem, sentimo-nos confortáveis em nosso corpo: a respiração flui, a barriga está relaxada e as costas estão naturalmente eretas. Quando negamos a nós mesmos, nosso corpo reage, expressando dor. Podemos pensar que estamos bem, mas se nosso estômago começar a doer, irá revelar nossa ansiedade e confusão emocional.
Portanto, se tivermos um relacionamento superficial com nossas emoções, poderemos momentaneamente negar nossos sentimentos, mas nosso corpo irá revelar que estamos, na realidade, nos abandonando.
São muitas as vezes em que dizemos o que não sentimos verdadeiramente. Isso ocorre porque não sentimos o que pensamos! Reconhecer que não estamos sentindo o que deveríamos sentir ou gostaríamos de estar sentindo é um desafio interior que devemos enfrentar.
No entanto, na maioria das vezes buscamos pensar algo justamente como um mecanismo de defesa para não sentir nossos sentimentos. Isto é, em simplesmente senti-los sem julgá-los como ruins ou bom. Senti-los com a intenção de conhecê-los. Sermos abertos para com nossos sentimentos demanda sinceridade e compaixão.
Não basta querer não pensar em algo para deixar de senti-lo. Os sentimentos não desaparecem só porque são indesejáveis. Aliás, pensar e sentir são duas funções que precisam estar harmonizadas entre si. Podemos pensar em nossas emoções, mas será necessário senti-las para que elas possam fluir. No entanto, não são os sentimentos em si que nos proporcionam sabedoria, mas sim o processo de abrirmo-nos a eles.
John Ruskan, em seu livro Purificação Emocional (Ed. Rocco), escreve sobre a importância de saber entrar em contato com nossos sentimentos sem a intenção de analisá-los imediatamente: “Lembre-se de que você não está entrando no sentimento com a intenção de analisá-lo e compreendê-lo. Não tente compreender porque o evento ocorreu, o porquê de suas ações ou sentimentos, o que há de aprender com o evento, etc... Essas compreensões virão espontaneamente como resultado da integração que a experiência direta trará. Por enquanto, limite-se a experimentar plenamente os sentimentos do evento. Se você persistir em tentar analisar, a integração será inibida”.
Portanto, o segredo está em confiar que você obterá o que necessita saber de uma experiência no ato de acolhê-la. Ou seja, podemos nos propor sentir o que rejeitamos como processo de autoconhecimento e não como um sentença de condenação.
Não podemos nos obrigar a sentir nossos sentimentos. Não há necessidade de forçar nada.
O objetivo é integrar as diferentes partes de nossa mente e criar intimidade, isto é, proximidade com a própria mente. E não necessariamente analisá-la. Enquanto a análise estiver contaminada do hábito da auto-acusação, é melhor mantê-la de fora.
A chave é manter uma relação direta consigo mesmo. Pois só assim poderemos apreciar a energia fluida e agradável que existe naturalmente dentro de nós.
Ser sincero com você mesmo é um ato de coragem. Pois o autoconhecimento nos leva a tomar decisões ousadas e irreversíveis. Lembro-me certa vez quando consegui assumir conscientemente algo que precisaria de muita coragem para reconhecer o que, de fato, estava sentindo. Entrei no meu quarto, apaguei a luz, deitei na cama, cobri meu rosto com a coberta, e perguntei a mim mesma: o que você quer fazer nesta situação?
Apesar de saber que já conhecia a resposta, ter agido assim fez com que eu me aproximasse da decisão. Não havia mais como negar a mim mesma. Depois que escutamos o que queremos, não dá mais para fugir. Pelo menos de nós mesmos. Podemos estrategicamente continuar fingindo para o mundo algo que ainda não estamos prontos para expressar, mas internamente não podemos nos enganar.
Quando finalmente relaxamos, comunicamo-nos com nosso mundo interior sem mais rodeios e rompemos as barreiras das palavras, permitindo que a nossa mente e o corpo se unam. Aos poucos, percebemos que é possível relaxar em nossa própria energia. Quando o corpo e a mente estão unidos, participamos plenamente do mundo e podemos nos comunicar com ele num nível ainda mais amplo e sutil.
Quanto mais transparência houver dentro e fora de nós, melhor será. Ocorrerão menos interferências negativas, pois aquele que não teme ser autêntico está em harmonia com o mundo à sua volta. Pois está conectado com o mundo, aberto e interessado em interagir.
SÍNDROME DE VÍTIMA: A INCAPACIDADE DE ACEITAR O MUNDO COMO ELE É
Artigo publicado por Antônio Roberto
"Todo o comportamento humano decorre da concepção que nós temos da
realidade e nessa realidade existem dois pólos bastante distintos: aquilo
que nós somos e aquilo que nos cerca. Nossa postura na vida depende do modo
como estabelecemos essa relação: a relação entre nós e os outros, entre nós
e os membros da nossa família, entre nós e outros membros da sociedade,
entre nós e as coisas, entre nós e o trabalho, entre nós e a realidade
externa. A nossa maneira de sentir e de viver depende de como cada um de
nós interioriza a relação entre essas duas partes da realidade. E uma das
formas que aprendemos de nos relacionarmos com os outros é a postura que
designamos por vítima.
O que é a vítima? A vítima é a pessoa que se sente inferior à realidade, é
a pessoa que se sente esmagada pelo mundo externo, é a pessoa que se sente
desgraçada face aos acontecimentos, é aquela que se acostuma a ver a
realidade apenas em seus aspectos negativos. Ela sempre sabe o que não
deve, o que não pode, o que não dá certo. Ela consegue ver apenas a sombra
da realidade, paralelo a uma incrível capacidade para diagnosticar os
problemas existentes. Há nela uma incapacidade estrutural de procurar o
caminho das soluções e, neste sentido, ela transfere os seus problemas para
os outros; transfere para as circunstâncias, para o mundo exterior, a
responsabilidade do que está lhe acontecendo. Esta é a postura da
justificativa. Justificar-se é o sinal de que não queremos mudar. Para não
assumirmos o erro, justificamo-nos, ou seja, transformamos o que está
errado em injusto e, de justificativa em justificativa, paralisamo-nos,
impedimo-nos de crescer.
A vítima é incompetente na sua relação com o mundo externo. Enquanto
colocarmos a responsabilidade total dos nossos problemas em outras pessoas
e circunstâncias, tiraremos de nós mesmos a possibilidade de crescimento.
Em vez disso, vamos procurar mudar as outras pessoas.
Este tipo de postura provém do sentimento de solidão. É quando não
percebemos que somos responsáveis pela nossa própria vida, por seus altos e
baixos, seu bem e seu mal, suas alegrias e tristezas; é quando a nossa
felicidade se torna dependente da maneira como os outros agem. E como as
pessoas não agem segundo nosso padrão, sentimo-nos infelizes e sofredores.
Realmente, a melhor maneira de sermos infelizes é acreditarmos que é à
outra pessoa que compete nos dar felicidade e, assim, mascaramos a nossa
própria vida frente aos nossos problemas.
A postura de vítima é a máscara que usamos para não assumirmos a realidade
difícil, quando ela se apresenta. É a falta de vontade de crescer, de
mudar' escondida sob a capa da aparição externa. Essa é uma das maiores
ilusões da nossa vida: desejarmos transferir para a realidade que não nos
pertence, sobre a qual não possuímos nenhum controle, as deficiências da
parte que nos cabe. Toda relação humana é bilateral: nós e a sociedade, nós
e a família, nós e o que nos cerca. O maior mal que fazemos a nós próprios
é usarmos as limitações de outras pessoas do nosso relacionamento para não
aceitarmos a nossa própria parte negativa.
Assim, usamos o sistema como bode expiatório para a nossa acomodação no
sofrimento. A vítima é a pessoa que transformou sua vida numa grande
reclamação. Seu modo de agir e de estar no mundo é sempre uma forma
queixosa, opção que é mais cômoda do que fazer algo para resolver os
problemas. A vítima usa o próprio sofrimento para controlar o sentimento
alheio; ela se coloca como dominada, como fraca, para dominar o sentimento
das outras pessoas.
O que mais caracteriza a vítima é a sua falta de vontade de crescer.
Sofrendo de uma doença chamada perfeccionismo, que é a não aceitação dos
erros humanos, a intolerância com a imperfeição humana, a vítima desiste do
próprio crescimento. Ela se tortura com a idéia perfeccionista, com a
imagem de como deveria ser, e tortura também os outros relativamente àquilo
que as outras pessoas deveriam ser. Há na vítima uma tentativa de enquadrar
o mundo no modelo ideal que ela própria criou, e sempre que temos um modelo
ideal na cabeça é para evitarmos entrar em contato com a realidade. A
vítima não se relaciona com as pessoas aceitando-as como são, mas da
maneira que ela gostaria que fossem. É comum querermos que os outros sejam
aquilo que não estamos conseguindo ser, desejar que o filho, a mulher e o
amigo sejam o que nós não somos.
Colocar-se como vítima é uma forma de se negar na relação humana. Por esta
postura, não estamos presentes, não valemos nada, somos meros objetos da
situação. Querendo ser o todo, colocamo-nos na situação de sermos nada.
Todavia, as dificuldades e limitações do mundo externo são apenas um
desafio ao nosso desenvolvimento, se assumirmos o nosso espaço e estivermos
presentes.
Assim, quanto pior for um doente, tanto mais competente deve ser o médico;
quanto pior for um aluno, mais competente deve ser o professor. Assim
também, quanto pior for o sistema ou a sociedade que nos cerca, mais
competentes devemos ser com pessoas que fazem parte desta sociedade; quanto
pior for nosso filho, mais competentes devemos ser como pai ou mãe; quanto
pior for a nossa mulher, mais competentes devemos ser como marido; quanto
pior for nosso marido, mais competentes devemos ser como esposa, e assim
por diante. Desta forma, colocamo-nos em posição de buscar o crescimento e
tomamos a deficiência alheia como incentivo para nossas mudanças
existenciais. Só podemos crescer naquilo que nós somos, naquilo que nos
pertence. A nossa fantasia está em querermos mudar o mundo inteiro para
sermos felizes. Todos nós temos parte da responsabilidade naquilo que está
ocorrendo. Não raras vezes, atribuímos à sociedade atual, ao mundo, a causa
de nossas atribulações e problemas. Talvez seja esta a mais comum das
posturas da vítima: generalizar para não resolver.
Os problemas da nossa vida só podem ser resolvidos em concreto, em
particular. Dizer, por exemplo, que somos pressionados pela sociedade a
levar uma vida que não nos satisfaz, é colocar o problema de maneira
insolúvel. Todavia, perguntar a nós mesmos quais são as pessoas que
concretamente estão nos pressionando para fazer o que nos desagrada, pode
ajudar a trazer uma solução. Só podemos lidar com a sociedade em termos
concretos, palpáveis. Conforme nos relacionamos com cada pessoa, em cada
lugar, em cada momento, estamos nos relacionando com a sociedade, porque
cada pessoa específica, num determinado lugar e momento, é a sociedade para
nós naquela hora. Generalizamos para não solucionarmos, e como tudo aquilo
que nos acontece está vinculado à realidade, todas as vezes que quisermos
encontrar desculpas para nós basta olhar a imperfeição externa.
Colocar-se como vítima é economizar coragem para assumir a limitação
humana, é não querer entender que a morte antecede a vida, que a semente
morre antes de nascer, que a noite antecede o dia. A vítima transforma as
dificuldades em conflito, a sua vida num beco sem saída. Ser vítima é
querer fugir da realidade, do erro, da imperfeição, dos limites humanos.
Todas as evidências da nossa vida demonstram que o erro existe, existe em
nós, nos outros e no mundo. Neurótica é a pessoa que não quer ver o óbvio.
A vítima é uma pessoa orgulhosa que veste a capa da humildade. O orgulho
dela vem de acreditar que ela é perfeita e que os outros é que não prestam.
Crê que se o mundo não fosse do jeito que é' se sua esposa não fosse do
jeito que é' se seus filhos não fossem do jeito que são, se o seu marido
fosse diferente, ela estaria bem, porque ela, a vítima, é boa, os outros é
que têm deficiências, apenas os outros têm que mudar.
A esse jogo chama-se o "Jogo da Infelicidade". A vítima é uma pessoa que
sofre e gosta de fazer os outros sofrerem com o sofrimento dela, é a pessoa
que usa suas dificuldades físicas, afetivas, financeiras, conjugais,
profissionais, não para crescer, mas para permanecer nelas e, a partir
disso, fazer chantagem emocional com as outras pessoas.
A vítima é a pessoa que ainda não se perdoou por não ser perfeita e
transformou o sofrimento num modo de ser, num modo de se relacionar com o
mundo. É como se olhasse para a luz e dissesse: "Que pena que tenha a
sombra...", é como se olhasse para a vida e dissesse: "Que pena que haja a
morte...", é como se olhasse para o sim e dissesse: "Que pena que haja o
não...". E se nega a admitir que a luz e a sombra são faces de uma mesma
moeda, que a vida é feita de vales e de montanhas.
Não são as circunstâncias que nos oprimem, mas, sim, a maneira como nos
posicionamos diante delas, porque nas mesmas circunstâncias em que uns
procuram o caminho do crescimento, outros procuram o caminho da loucura, da
alienação. As circunstâncias são as mesmas, o que muda é a disposição para
o alvorecer e para o desabrochar, ou para murchar e fenecer."
Grupo Ciranda de Mulheres – E-mail cirandademulheres@ig.com.br
Informações : 62-91011963 – Mara Suassuna
"Todo o comportamento humano decorre da concepção que nós temos da
realidade e nessa realidade existem dois pólos bastante distintos: aquilo
que nós somos e aquilo que nos cerca. Nossa postura na vida depende do modo
como estabelecemos essa relação: a relação entre nós e os outros, entre nós
e os membros da nossa família, entre nós e outros membros da sociedade,
entre nós e as coisas, entre nós e o trabalho, entre nós e a realidade
externa. A nossa maneira de sentir e de viver depende de como cada um de
nós interioriza a relação entre essas duas partes da realidade. E uma das
formas que aprendemos de nos relacionarmos com os outros é a postura que
designamos por vítima.
O que é a vítima? A vítima é a pessoa que se sente inferior à realidade, é
a pessoa que se sente esmagada pelo mundo externo, é a pessoa que se sente
desgraçada face aos acontecimentos, é aquela que se acostuma a ver a
realidade apenas em seus aspectos negativos. Ela sempre sabe o que não
deve, o que não pode, o que não dá certo. Ela consegue ver apenas a sombra
da realidade, paralelo a uma incrível capacidade para diagnosticar os
problemas existentes. Há nela uma incapacidade estrutural de procurar o
caminho das soluções e, neste sentido, ela transfere os seus problemas para
os outros; transfere para as circunstâncias, para o mundo exterior, a
responsabilidade do que está lhe acontecendo. Esta é a postura da
justificativa. Justificar-se é o sinal de que não queremos mudar. Para não
assumirmos o erro, justificamo-nos, ou seja, transformamos o que está
errado em injusto e, de justificativa em justificativa, paralisamo-nos,
impedimo-nos de crescer.
A vítima é incompetente na sua relação com o mundo externo. Enquanto
colocarmos a responsabilidade total dos nossos problemas em outras pessoas
e circunstâncias, tiraremos de nós mesmos a possibilidade de crescimento.
Em vez disso, vamos procurar mudar as outras pessoas.
Este tipo de postura provém do sentimento de solidão. É quando não
percebemos que somos responsáveis pela nossa própria vida, por seus altos e
baixos, seu bem e seu mal, suas alegrias e tristezas; é quando a nossa
felicidade se torna dependente da maneira como os outros agem. E como as
pessoas não agem segundo nosso padrão, sentimo-nos infelizes e sofredores.
Realmente, a melhor maneira de sermos infelizes é acreditarmos que é à
outra pessoa que compete nos dar felicidade e, assim, mascaramos a nossa
própria vida frente aos nossos problemas.
A postura de vítima é a máscara que usamos para não assumirmos a realidade
difícil, quando ela se apresenta. É a falta de vontade de crescer, de
mudar' escondida sob a capa da aparição externa. Essa é uma das maiores
ilusões da nossa vida: desejarmos transferir para a realidade que não nos
pertence, sobre a qual não possuímos nenhum controle, as deficiências da
parte que nos cabe. Toda relação humana é bilateral: nós e a sociedade, nós
e a família, nós e o que nos cerca. O maior mal que fazemos a nós próprios
é usarmos as limitações de outras pessoas do nosso relacionamento para não
aceitarmos a nossa própria parte negativa.
Assim, usamos o sistema como bode expiatório para a nossa acomodação no
sofrimento. A vítima é a pessoa que transformou sua vida numa grande
reclamação. Seu modo de agir e de estar no mundo é sempre uma forma
queixosa, opção que é mais cômoda do que fazer algo para resolver os
problemas. A vítima usa o próprio sofrimento para controlar o sentimento
alheio; ela se coloca como dominada, como fraca, para dominar o sentimento
das outras pessoas.
O que mais caracteriza a vítima é a sua falta de vontade de crescer.
Sofrendo de uma doença chamada perfeccionismo, que é a não aceitação dos
erros humanos, a intolerância com a imperfeição humana, a vítima desiste do
próprio crescimento. Ela se tortura com a idéia perfeccionista, com a
imagem de como deveria ser, e tortura também os outros relativamente àquilo
que as outras pessoas deveriam ser. Há na vítima uma tentativa de enquadrar
o mundo no modelo ideal que ela própria criou, e sempre que temos um modelo
ideal na cabeça é para evitarmos entrar em contato com a realidade. A
vítima não se relaciona com as pessoas aceitando-as como são, mas da
maneira que ela gostaria que fossem. É comum querermos que os outros sejam
aquilo que não estamos conseguindo ser, desejar que o filho, a mulher e o
amigo sejam o que nós não somos.
Colocar-se como vítima é uma forma de se negar na relação humana. Por esta
postura, não estamos presentes, não valemos nada, somos meros objetos da
situação. Querendo ser o todo, colocamo-nos na situação de sermos nada.
Todavia, as dificuldades e limitações do mundo externo são apenas um
desafio ao nosso desenvolvimento, se assumirmos o nosso espaço e estivermos
presentes.
Assim, quanto pior for um doente, tanto mais competente deve ser o médico;
quanto pior for um aluno, mais competente deve ser o professor. Assim
também, quanto pior for o sistema ou a sociedade que nos cerca, mais
competentes devemos ser com pessoas que fazem parte desta sociedade; quanto
pior for nosso filho, mais competentes devemos ser como pai ou mãe; quanto
pior for a nossa mulher, mais competentes devemos ser como marido; quanto
pior for nosso marido, mais competentes devemos ser como esposa, e assim
por diante. Desta forma, colocamo-nos em posição de buscar o crescimento e
tomamos a deficiência alheia como incentivo para nossas mudanças
existenciais. Só podemos crescer naquilo que nós somos, naquilo que nos
pertence. A nossa fantasia está em querermos mudar o mundo inteiro para
sermos felizes. Todos nós temos parte da responsabilidade naquilo que está
ocorrendo. Não raras vezes, atribuímos à sociedade atual, ao mundo, a causa
de nossas atribulações e problemas. Talvez seja esta a mais comum das
posturas da vítima: generalizar para não resolver.
Os problemas da nossa vida só podem ser resolvidos em concreto, em
particular. Dizer, por exemplo, que somos pressionados pela sociedade a
levar uma vida que não nos satisfaz, é colocar o problema de maneira
insolúvel. Todavia, perguntar a nós mesmos quais são as pessoas que
concretamente estão nos pressionando para fazer o que nos desagrada, pode
ajudar a trazer uma solução. Só podemos lidar com a sociedade em termos
concretos, palpáveis. Conforme nos relacionamos com cada pessoa, em cada
lugar, em cada momento, estamos nos relacionando com a sociedade, porque
cada pessoa específica, num determinado lugar e momento, é a sociedade para
nós naquela hora. Generalizamos para não solucionarmos, e como tudo aquilo
que nos acontece está vinculado à realidade, todas as vezes que quisermos
encontrar desculpas para nós basta olhar a imperfeição externa.
Colocar-se como vítima é economizar coragem para assumir a limitação
humana, é não querer entender que a morte antecede a vida, que a semente
morre antes de nascer, que a noite antecede o dia. A vítima transforma as
dificuldades em conflito, a sua vida num beco sem saída. Ser vítima é
querer fugir da realidade, do erro, da imperfeição, dos limites humanos.
Todas as evidências da nossa vida demonstram que o erro existe, existe em
nós, nos outros e no mundo. Neurótica é a pessoa que não quer ver o óbvio.
A vítima é uma pessoa orgulhosa que veste a capa da humildade. O orgulho
dela vem de acreditar que ela é perfeita e que os outros é que não prestam.
Crê que se o mundo não fosse do jeito que é' se sua esposa não fosse do
jeito que é' se seus filhos não fossem do jeito que são, se o seu marido
fosse diferente, ela estaria bem, porque ela, a vítima, é boa, os outros é
que têm deficiências, apenas os outros têm que mudar.
A esse jogo chama-se o "Jogo da Infelicidade". A vítima é uma pessoa que
sofre e gosta de fazer os outros sofrerem com o sofrimento dela, é a pessoa
que usa suas dificuldades físicas, afetivas, financeiras, conjugais,
profissionais, não para crescer, mas para permanecer nelas e, a partir
disso, fazer chantagem emocional com as outras pessoas.
A vítima é a pessoa que ainda não se perdoou por não ser perfeita e
transformou o sofrimento num modo de ser, num modo de se relacionar com o
mundo. É como se olhasse para a luz e dissesse: "Que pena que tenha a
sombra...", é como se olhasse para a vida e dissesse: "Que pena que haja a
morte...", é como se olhasse para o sim e dissesse: "Que pena que haja o
não...". E se nega a admitir que a luz e a sombra são faces de uma mesma
moeda, que a vida é feita de vales e de montanhas.
Não são as circunstâncias que nos oprimem, mas, sim, a maneira como nos
posicionamos diante delas, porque nas mesmas circunstâncias em que uns
procuram o caminho do crescimento, outros procuram o caminho da loucura, da
alienação. As circunstâncias são as mesmas, o que muda é a disposição para
o alvorecer e para o desabrochar, ou para murchar e fenecer."
Grupo Ciranda de Mulheres – E-mail cirandademulheres@ig.com.br
Informações : 62-91011963 – Mara Suassuna
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